Justiça com as próprias mãos
- 6 de jul. de 2016
- 3 min de leitura

No movimento da contracultura nos Estados Unidos, entre os anos 1960 e 1970, surgem os chamados “guerrilheiros verdes”: ativistas que passam a se apropriar de espaços abandonados e transformá-los em hortas, realizando intervenções de maneira horizontal e independente, sob influência de ideais anarquistas. Quatro décadas depois, num momento em que mais da metade da população mundial vive em cidades, a agricultura urbana surge novamente como alternativa que traz benefícios para o meio ambiente, o urbanismo, a educação e a saúde.
“A agricultura urbana funciona como um mecanismo que a sociedade civil tem para se organizar de maneira autônoma e independente do Estado. A partir disso, ela consegue promover mudanças na cidade”, explica Gustavo Nagib, geógrafo que estuda o potencial ativista da agricultura urbana em seu mestrado, na FFLCH. Gustavo integra o Grupo de Estudos em Agricultura Urbana (GEAU), que reúne pesquisadores de diferentes áreas e universidades em torno do tema. “Na sua essência, ela talvez seja ativista. É uma maneira de trazer mais autossuficiência para a cidade, onde as pessoas vivem”, diz. A agricultura urbana estaria em busca de um novo modelo de cidade, mais heterogêneo e democrático.
Apesar de não ser uma prática recente — segundo Gustavo, há registros históricos do século 17, na Inglaterra —, em São Paulo a agricultura urbana ativista tem se organizado melhor nos últimos anos. Nisso as redes sociais têm papel importante. Em 2011, foi criado no Facebook o grupo Hortelões Urbanos, articulado pelas jornalistas Claudia Visoni e Tatiana Achcar: são pessoas de todo o Brasil que trocam experiências e discutem a produção de alimentos na cidade, seja dentro de casa ou em áreas públicas. O termo “hortelão urbano” se espalhou, e hoje o grupo chega a quase 25 mil membros na rede social.
A Horta das Corujas foi a primeira que resultou desse envolvimento coletivo, na praça Dolores Ibarruri, região da Vila Madalena. Num espaço de 800m² há diversos cultivos e acesso a água limpa, mesmo nos tempos mais secos, desde que recuperaram uma das nascentes que abastecem o Córrego das Corujas. A horta é aberta a todos, com uma cerca baixa apenas para evitar a entrada de cachorros, e recebeu apoio do Cades (Conselho Regional de Meio Ambiente Desenvolvimento Sustentável e Cultura de Paz) da subprefeitura de Pinheiros.
Desde então, hortas comunitárias se espalharam pela cidade. Muitas delas podem ser localizadas nos mapas colaborativos do site do Movimento Urbano de Agroecologia de São Paulo (Muda SP) e do Cidades Comestíveis, plataforma lançada neste ano com patrocínio do edital municipal Redes e Ruas. O projeto busca conectar áreas e pessoas interessadas em agricultura urbana. “A principal experiência das hortas comunitárias é propiciar que pessoas de jeitos e gostos diferentes convivam entre si”, diz Claudia.
A jornalista começou a se envolver com agricultura urbana em 2008, plantando em casa. Ao longo desse percurso, encontrou e listou 18 motivos para incentivar a prática, que vão desde a educação nutricional até a conservação do espaço público.
As hortas normalmente acontecem em espaços como praças, parques e canteiros de avenidas. A Lei Municipal Nº 16.212 de 10 junho de 2015 trata da gestão participativa de praças públicas por meio de comitês de moradores, em conjunto com as Subprefeituras, e inclui em seu texto as hortas comunitárias. A cidade de São Paulo possui também um Programa de Agricultura Urbana e Periurbana (PROAURP), que incentiva a criação de hortas comunitárias e hortas caseiras para autoconsumo.
(Fonte : https://hortadascorujas.wordpress.com/)



























Comentários